sexta-feira, 16 de julho de 2010

Perdas e Ganhos

Houve, enfim, o tão esperado e improvável encontro entre o prefeito Cláudio Giannini e o vereador Oliveira.
Foi um encontro agendado, na prefeitura de Cabreúva, pelo vereador José Gomes, que serviu de interlocutor entre essas duas personalidades tão distintas e opostas. Por convite do prefeito, este blogueiro, por ser assessor do vereador Oliveira, também esteve presente.
A discussão girou em torno de amenidades, com uma apresentação, por Cláudio Giannini, de sua vida e dos problemas e dificuldades que a cidade de Cabreúva enfrenta.
Isso é o que foi dito.
Mas as entrelinhas e o que não foi falado, dizem muito mais coisas.
Esse encontro foi a fórmula usada pelo grupo do prefeito, na tentativa de desestabilizar e desestruturar todo o grupo de oposição de Cabreúva.
Ora, o prefeito encontrou-se com seu mais ferrenho opositor por uma hora, para a perplexidade de uns, desespero de outros e a dúvida de todos.
Teria o vereador Oliveira firmado um acordo político com o prefeito Cláudio Giannini? Por que não, agora, encontrar-se com os outros membros da oposição? Tornaria mais fácil articular o apoio de outros vereadores da oposição à eleição da presidência na Câmara, ao candidato do governo, o vereador José Gomes, dizendo a todos que o seu apoio estava garantido e tinha, agora, a maioria.
Essa jogada do prefeito Cláudio Giannini foi ardilosa, perversa e inteligente, mas, felizmente, não surtiu o efeito desejado. O prefeito e seu grupo subestimaram seus adversários políticos. Puro Maquiavel, para aqueles que o conhecem.
O grupo de oposição, liderado por Antonio Carlos Mangini, encontra-se coeso e consciente do que representa para Cabreúva. Nada é feito sem o seu conhecimento e sua aprovação. É assim que deve ser. É assim que o líder deve agir.
Desta forma, nem mesmo os dois processos de cassação de mandato de vereador e os dezoito processos contra este blogueiro e assessor do vereador Oliveira, fazem parte de qualquer discussão, pois não se negocia a verdade, a ética e nem o que é correto.
O vereador Henrique Martin será o nome que concorrerá à presidência da Câmara pela oposição, que terá ainda os votos dos vereadores Marcelo Defendi, Lurdes Santi, Célia Donato e Oliveira.
Desta forma, as forças políticas se equilibram e a Câmara será o contraponto às ações e reações da prefeitura.
Numa análise aprofundada do problema que tentou causar, encontra-se a falta de opção por parte da prefeitura, de um nome para concorrer às eleições de 2012.
Sabe-se que o prefeito não tem um sucessor de nome e peso, vindo das fileiras do PMDB. Sendo assim, quer desarticular o grupo opositor para enfraquecê-lo, tentando criar situações de embaraço entre seus membros.
O que se viu até agora, é que não está conseguindo seu intento, não por sua falta de talento político, mas pela união e força esmagadora da oposição que enfrenta e vai continuar enfrentando, tendo à frente o vereador Henrique, diferente de seu grupo situacionista na Câmara, cada dia mais dividido e em dúvidas sobre seus líderes.
Entre perdas e ganhos, Cabreúva ganhará, certamente.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A ineficiência da administração pública municipal

Fazemos parte de uma cidade pequena, com cerca de 50.000 habitantes, mas cheia de problemas. Essa afirmação é dolorosa para a parcela da população que ama, de fato, Cabreúva.
Existem soluções para os problemas? Sim, existem. O único problema é que a administração municipal não se esforça para isso.
Qualquer cidadão nota que, nas cidades vizinhas, o crescimento está acompanhado de arrojo dos administradores municipais, com obras básicas de infraestrutura em todas as áreas.
Cidades educadoras, ênfase na saúde, habitação, meio-ambiente, estruturas sociais, empreendedorismo, formadores de técnicos, industriais, enfim, uma gama ilimitada de objetivos que a administração pública municipal, baseada nas necessidades de seu povo, devem priorizar.
Pergunto, então: qual a prioridade da administração de Cabreúva? Acredito que ninguém saiba responder, nem mesmo nossa prefeitura.
A atual administração já foi opositora dos governos passados e, nessa posição, apresentava propostas de melhorias para Cabreúva. As eleições municipais passaram e a oposição do passado, hoje está no poder. Quais mudanças ocorreram? Difícil responder, pois os problemas continuam os mesmos, mas com um toque mais atual.
Fazendo uma análise bem detalhada e isenta, posso afirmar que o grande problema que emperra e impede o crescimento e desenvolvimento de nossa cidade é o fator político.
Chego a essa conclusão e, é visível a qualquer pessoa que se disponha a fazer esse exercício analítico de forma imparcial, baseado não só na falta de diálogo entre a administração municipal e o legislativo, mas sobretudo nos sinais visíveis de descaso com os bens e obras públicas, no aparelhamento dos conselhos municipais, na falta de transparência dos gastos públicos e nos inúmeros processos julgados irregulares pelo Tribunal de Contas do Estado.
O uso inadequado do dinheiro dos nossos impostos, que é chamado dinheiro público, é um sinal claro para a interferência do Ministério Público, para a busca necessária dos princípios constitucionais da legalidade, legitimidade, economicidade e eficiência que deveriam nortear a administração pública municipal.
Sabemos que a sintonia entre os poderes deveria ser uma base para a solução dos muitos problemas estruturais que enfrentamos, mas a falta de diálogo entre o executivo e o legislativo é um dos motivos ou desculpa propagada, para que nenhuma solução seja pensada.
Essa falta de diálogo leva ao não-cumprimento da função do legislador que, além de fazer as leis, é o de fiscalizar o cumprimento das leis e a aplicação dos recursos orçamentários, evitando, desta forma, contratações, licitações e obras irregulares e eleitoreiras,
Exemplo disso, são as creches do Vale Verde e Novo Bonfim, feitas a toque de caixa, com evidente ênfase eleitoral e que permanecem fechadas por falta de material pedagógico, móveis e funcionários qualificados, além do asfalto das diversas ruas do município que, são, sim, obras necessárias, mas de qualidade duvidosa.
A saúde, educação, assistência social, meio ambiente, turismo, agricultura, cultura e demais pastas administrativas também sofrem com a falta de integração do executivo e legislativo, com convênios mal explicados ou não cumpridos, com inchaço de pessoal desqualificado, com a falta de infraestrutura básica ao funcionamento das secretarias.
Não podemos nos esquecer do funcionário público concursado, ao qual falta um plano de carreira que valorize o pessoal técnico e qualificado ou que forneça a qualificação necessária aos funcionários públicos municipais, além dos professores da rede municipal de educação, norma básica para o recebimento dos repasses do FUNDEB.
A análise dos problemas estruturais do município nos leva e crer que a atual administração municipal é ineficiente, como em grande parte dos pequenos municípios do estado e do país.
Mas é em Cabreúva que nascemos, moramos e vivemos, portanto é para a administração pública de nossa cidade que devemos fazer as cobranças e críticas, não para denegrir imagens ou destruir pessoas, mas para termos uma cidade melhor para todos nós.

sábado, 8 de maio de 2010

Retrato de Mãe

Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus;

e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo; que, sendo moça pensa como uma anciã e, sendo velha , age com as forças todas da juventude;

quando ignorante, melhor que qualquer sábio desvenda os segredos da vida e, quando sábia, assume a simplicidade das crianças;

pobre, sabe enriquecer-se com a felicidade dos que ama, e, rica, empobrecer-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos;

forte, entretanto estremece ao choro de uma criancinha, e, fraca, entretanto se alteia com a bravura dos leões;

viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam, e, morta tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo, e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.

Não exijam de mim que diga o nome desta mulher se não quiserem que ensope de lágrimas este álbum: porque eu a vi passar no meu caminho.

Quando crescerem seus filhos, leiam para eles esta página: eles lhes cobrirão de beijos a fronte; e dirão que um pobre viandante, em troca da suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria Mãe...

Don Ramon Angel Jara - Bispo de La Serena - Chile (escrito num álbum)
Tradução de Guilherme de Almeida

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Uma lição de cidadania

Na noite desta quarta-feira, 05 de maio de 2010, a Câmara Municipal estava lotada, como a muito não se via, com todos os seus assentos ocupados, em sua maioria, por jovens cabreuvanos. Mas o que estavam fazendo lá ou o que queria esses jovens? Essa era a pergunta dos senhores vereadores e de alguns dos presentes. 
Respondo, então, senhores: estavam exercendo a cidadania, coisa pouco comum em nossa cidade, onde aqueles que se manifestam, correm o sério risco de serem perseguidos politicamente.
O que presenciamos na Câmara Municipal, está deixando o campo da ficção para encontrar o terreno fértil da realidade: o pleno exercício da cidadania. 
Alegro-me em saber que cada dia mais, os jovens estão mostrando o valor que sempre tiveram, mas escondia-se sob o preconceito dos adultos, que sempre os tiveram como irresponsáveis e arruaçeiros. 
Não é essa a realidade: os jovens sabem o que querem e são suficientemente responsáveis para lutar por seus direitos e serem reconhecidos como cidadãos.
Publico, abaixo, o corajoso discurso proferido por Marcelo Cortez, o jovem cabreuvano que fez uso da Tribuna Livre na Câmara Municipal de Cabreúva, que deixou calado alguns vereadores e foi muito aplaudido por todos aqueles que estavam presentes.
Uma verdadeira lição de cidadania, como muitas outras ainda virão.
   
    "Boa noite senhora presidente, senhores vereadores e cidadãos cabreuvanos aqui presentes.
    Primeiramente, agradeço a Senhora Presidente por me conceder a oportunidade de ocupar esta tribuna nesta noite. Agradeço também aos vereadores que compõem este plenário, por conceder sua atenção neste momento, aos amigos e colegas aqui presentes e, finalmente, a Deus, por me permitir estar aqui. 
    O que me traz nesta tribuna esta noite é um assunto relacionado ao exercício da cidadania. 
    Fiz um protocolo junto à Prefeitura Municipal, que continha as reivindicações dos usuários do ginásio Tancredo Neves, mais conhecido como “Suvacão” (este protocolo está registrado sob o número 6863/09 e foi protocolado no dia 12/11/2009). 
    Conforme a lei, este documento deveria ter sido respondido em, no máximo, dez dias. 
    Passado contudo, sete meses, não obtive qualquer tipo de manifestação ou resposta por parte do Executivo Municipal. 
    Essa reivindicação foi acompanhada de um abaixo-assinado com 324 assinaturas, o que mostra que esta é uma demanda proveniente de um número representativo de cabreuvanos (suficiente, aliás, para a convocação de uma audiência pública solicitada pela sociedade civil, conforme artigo 243 – inciso I do Regimento Interno da Câmara Municipal de Cabreúva). 
    Embora não tenha optado pela realização da audiência, entendo que minha presença aqui nesta noite está respaldada pelo interesse desses 324 cidadãos, e certamente de tantos outros que desejariam ver nosso ginásio em condições dignas de uso, mas não tiveram a oportunidade de assinar o documento ou estarem aqui nesta noite.
    Manifesto, portanto, com este gesto, minha indignação. 
    Não é aceitável que em um regime que se quer verdadeiramente democrático, um simples pedido seja solenemente ignorado pelo poder público. Este deveria estar em uma sintonia maior com a população, porque, afinal de contas, existe unicamente para seu serviço. Assim, seria de se esperar que no exercício maduro da democracia representativa, a reivindicação da população fosse vista como algo benéfico, como aquilo que se soma aos esforços dos governantes para bem atender às necessidades dos munícipes. 
    O que vemos em Cabreúva, no entanto, é o contrário disso. Impera uma enorme burocracia para fazer chegar aos nossos representantes um simples abaixo-assinado, burocracia essa explícita nessa despropositada taxa de R$ 13,00 (treze reais), cobrada de quem quer somente fazer valer seus direitos. 
    Quando vencemos essas barreiras burocráticas, nos deparamos com o descaso e o desrespeito, evidenciados nesse absoluto silêncio quanto ao documento em questão.
    Será demais esperar um tratamento minimamente digno por parte dos que ora ocupam cargos para o qual foram eleitos ou nomeados com o único intuito de servir à população cabreuvana?"
Marcelo Cortez, cidadão cabreuvano.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Homem Medíocre

Todo aquele que se sente capaz de criar um destino, com o seu talento e com o seu esforço, está inclinado a admirar o esforço e o talento nos demais; o desejo da própria glória não pode sentir-se coagido pelo legítimo enaltecimento alheio. Aquele que tem méritos sabe o que eles custam, e os respeita; estima, nos outros, o que desejaria que os outros estimassem nele. O medíocre ignora esta admiração franca: muitas vezes se resigna a aceitar o triunfo que ultrapassa as restrições da sua inveja. Mas aceitar não é amar, resignar-se não é admirar.
Os espíritos de asas curtas são malévolos; os grandes engenhos são admirativos. Estes sabem que os dons naturais não se transformam em talento ou engenho sem um esforço, que é a medida do seu mérito. Sabem que cada passo no sentido da glória custa trabalhos e vigílias, meditações profundas, tentativas de fim, consagração tenaz, a esse pintor, a esse poeta, a esse filósofo, a esse sábio; e compreendem que eles consumiram porventura o seu organismo, envelhecendo prematuramente; e a biografia dos grandes homens lhes ensina que muitos renunciaram o repouso ou o pão, sacrificando, tanto um como outro, a fim de ganhar tempo para meditar, ou para comprar um livro iluminador de suas meditações. Essa consciência daquilo em que o mérito importa, os faz respeitar. O invejoso, que o ignora, vê o resultado a que os outros chegam e ele não, sem suspeitar quantos espinhos foram semeados no caminho da glória. Todo escritor medíocre é candidato a criticastro. A incapacidade de criar impele-o a destruir. Sua falta de inspiração o induz a corroer o talento alheio, empanando-o com especiosidades que denunciam a sua irreparável inferioridade. Os altos engenhos são equânimes na crítica de seus iguais, como se reconhecessem, neles, uma consangüinidade em linha direta; no êmulo, não vêem nunca um rival.
O verdadeiro critico enriquece as obras que estuda, e em tudo o que toca deixa um rastro de sua personalidade. Os criticastros, que são, por instinto, inimigos da obra, desejam diminuí-la, pela simples razão de que eles não a escreveram. Nem saberiam escreve-la, se o criticado lhes contestasse: "Faze-a melhor". Têm as mãos travadas por fitas métricas; seu afã de medir os outros corresponde ao sonho de rebaixá-los até à sua própria medida. São, por definição, prestamistas, parasitas, vivem do alheio, pois se limitam a baralhar, com mão hábil, o mesmo que aprenderam no livro que procuram desacreditar. Quando um grande escritor é erudito, reprovam-no como falto de originalidade; se não o é, apressam-se a culpá-lo de ignorância. Se emprega um raciocínio que outros usaram, denominam-no plagiário, embora assinale as fontes da sua sabedoria; se omite a assinalação, acusam-no, por serem vulgares, de improbidade. Em tudo encontram motivo para maldizer e invejar, revelando a sua antipatia interna.
O criticastro medíocre é incapaz de alinhavar três idéias fora do fio que a rotina lhe sugere. Sua bojuda ignorância obriga-o a confundir o mármore com o mecaxisto, e a voz com o falsete, inclinando-o a supor que todo o escritor original é um heresiarca. Os pacóvios dariam o que não têm para saber escrever um pouquinho, para serem incorporados à crítica profissional. É o sonho dos que não podem criar. Permite uma maledicência medrosa e que não compromete, feita de mendacidade prudente, restringindo as perversidades para que fiquem mais agudas tirando aqui uma migalha e dando ali um arranhão, velando tudo o que pode ser objeto de admiração, rebaixando sempre com a oculta esperança de que possam aparecer a um mesmo nível os críticos e os criticados. O escritor original sabe que atormenta os medíocres aguilhoando-lhes essa paixão que os desespera em face do brilho alheio; o desespero dos fracassados é a lucro que melhor pode premiar o seu labor luminoso. O ridículo de um Zoilo chega sempre a andar passo a passo com a glória de um Homero.
Fermentam, em cada gênero de atividade intelectual, como pragas pediculares da originalidade; não perdoam aquele que incuba, em seu cérebro, essa larva silenciosa. Vivem para manchá-lo ou destroná-lo, sonham com o seu extermínio, conspiram com uma intemperança de terroristas, esgrimem sórdidas calúnias que fariam enrubescer um paquiderme. Vêem um perigo em cada astro e uma ameaça em cada gesto; tremem, pensando que existem homens capazes de subverter rotinas e preconceitos, de acender novos planetas no céu, de arrancar sua força aos raios e às cataratas, de infiltrar novos ideais às raças envelhecidas, de suprimir as distâncias, de violar a força de gravidade e de abalar o governo...
Os espíritos rotineiros são rebeldes à admiração: não reconhecem o fogo dos astros porque nunca tiveram, em si, uma única chispa. Jamais se entregam de boa-fé aos ideais ou às paixões que lhes assaltam o coração; preferem opor-lhes mil raciocínios, para privar-se do prazer de admirá-los. Confundirão sempre o equívoco e o cristalino, rebaixando todo ideal até às baixas intenções que supuram em seus cérebros. Pulverizarão todo o belo, esquecendo que o trigo moído e feito farinha já não pode germinar em espigas douradas, à luz do sol. "É um grande sinal de mediocridade - disse Leibniz - elogiar sempre moderadamente". Pascal dizia que os espíritos vulgares não encontram diferenças entre os homens: descobrem-se mais tipos originais, à medida que se possui maior engenho. O criticastro é miserável; admira um pouco todas as coisas, mas nada merece a sua admiração decidida. Aquele que não admira o melhor, não pode melhorar. Os que não sabem admirar não têm futuro. É uma covardia aplacar a admiração; é preciso cultivá-la, como fogo sagrado, evitando que a inveja a cubra com a sua pátina ignominiosa.
De O Homem Medíocre, trad. Gesner de Wilson Morgado, Rio, Melson, 1963.
JOSÉ INGENIEROS (1877-1925)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Dia do índio



Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo tupi.
Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi...

I-Juca Pirama, Gonçalves Dias

Uma homenagem aos bravos e honrados índios, pela comemoração de seu dia, 19 de abril.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Democracia e Liberdade

"A liberdade se impôs como fundamento inegociável da política quando a ciência tirou a Terra do centro do Universo e o homem do centro da Terra.

E a imprensa foi a ferramenta dessa revolução.

Mais de mil e quinhentos anos se tinham passado; rios de lágrimas e de sangue tinham corrido quando a invenção de Gutemberg finalmente permitiu que Lutero desmascarasse o esquema de poder que, apoiado na censura e no controle estrito da informação, tinha se estruturado por cima da Igreja e transformado a mensagem de Cristo num instrumento de terror.
Desse momento em diante o controle da imprensa passou a ser a obsessão das igrejas, leigas ou religiosas, e dos Estados autoritários.
Tinham toda a razão. Somos inimigos inconciliáveis.
A história não registra exceção. As tiranias se instalam quando o Estado consegue deter pela força o livre fluxo das ideias. As tiranias desmoronam quando a informação volta a circular.
O percurso tem sido longo. Mas, por mais pedras que haja no caminho, o rumo não poderá ser invertido.
O primeiro olhar do homem para a vastidão do universo feriu de morte os deuses das verdades absolutas. O que veio depois é mera consequência.
Na Inglaterra seiscentista o homem teve, pela primeira vez desde que há registro, a experiência da convivência com a diversidade de crenças. Para além de preparar o terreno para o surgimento da ciência moderna tirando o pressuposto da frente do fato e o dogma da frente da experimentação, esse momento consagrou a tolerância como um valor absoluto na esfera das relações humanas.
E de lá a luta se espalhou pelo mundo.
Passados quase quatro séculos a liberdade ainda é um privilégio de poucos. Se a capacidade de ir diretamente às fontes do conhecimento estabelecido é o instrumento da libertação individual, a educação é o único caminho de acesso a esse instrumento. Onde ela não entra a liberdade não se estabelece.
Os espíritos autoritários não odeiam apenas os veículos do conhecimento. Odeiam o próprio conhecimento. E não é por acaso...
É este o drama do Brasil. Quem não conhece o passado está condenado a vivê-lo de novo. E cá estamos nós, outra vez, às voltas com um país que se quer o centro do mundo e um projeto de ditador que se imagina o centro do país...
Mas sejam quantos forem os que se deixarem enganar por isso, o essencial não mudou. Em plena revolução tecnológica, tudo que sabemos é que saberemos mais amanhã do que sabemos hoje e que, na sociedade da informação, mais gente ficará sabendo disso a cada minuto que passar.
A dúvida, cada vez mais, é senhora. E essa ausência de certezas é o pressuposto da liberdade.
Continuará faltando aos ditadores em projeto uma "verdade" em que se apoiar. Terão de instalar seus regimes sob o signo da fraude. De vender-se pelo que não são. E se, quando não puderem mais enganar, recorrerem aos mesmos meios do passado sem poder alegar os mesmos belos fins para justificá-los, estarão se atirando na vala dos criminosos comuns.
Não há mais tapeação neste mundo de janelas abertas. Eles têm os dias contados!
Hoje existe um outro tipo de tirania que é mais insidiosa. Vem com a chancela da "maioria" que boa parte da imprensa se compraz em servir. Essa ausência de resistência torna-a duplamente perigosa. Com as armas da moda e da moralidade, que são a nova cara das antigas "verdades oficiais", a "sociedade", esse poder não eleito que atua em todos os campos e não só no da política, pode se revestir de uma capacidade de constrangimento terrível. E, no entanto, é preciso lembrar com Stuart Mill que "se todos os homens menos um partilhassem da mesma opinião, e apenas uma única pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não teria mais legitimidade para silenciar esta única pessoa do que ela, se poder tivesse, para silenciar toda a humanidade".
Está na hora de isso começar a ser afirmado, especialmente para plateias como esta, com a veemência que a extensão do fenômeno exige.
Na trincheira do jornalismo aprende-se rapidamente que cada conceito está sujeito a se transformar no vício para o combate do qual ele foi criado. Que ao opor resistência aos grandes males da atualidade é bom não fechar os olhos ao possível perigo do triunfo total de qualquer princípio. Que liberdade para os lobos quase sempre significa a morte para os cordeiros...
Aprende-se que a liberdade é mais a oportunidade de ação que a ação em si mesma. É mais o poder fazer do que o fazer propriamente dito. E que o único limite que pode, legitimamente, ser imposto à de cada um é aquele em que o seu exercício implica restringir a liberdade do próximo.
Nestes 135 anos, tendo participado ativamente de todos os movimentos políticos que o País viveu, O Estado de S. Paulo tem sido identificado por todos os governos por que o País passou, aí incluídos especialmente os que ajudou a constituir, como o seu mais incômodo opositor. Colecionou intervenções, atentados e atos de censura de representantes de todos os quadrantes do espectro ideológico. Arrancou de prisões e acolheu em sua redação fugitivos de todos os regimes.
Tem agido assim porque sabe que, essencialmente, liberdade é a liberdade de dissentir. Tem agido assim, nas palavras de Julio de Mesquita Filho, porque "repudia as afirmações categóricas". Porque "limita-se a observar o curso dos acontecimentos para pautar por ele as suas ações". Porque "não admite o apriorismo político e as concepções tendentes a deformar as sociedades humanas e o indivíduo segundo modelos preconcebidos". Porque "crê na inteligência do homem, mas nega-lhe o poder da profecia".
É em nome de todos os que, através dele, participaram desta luta que recebemos este prêmio.
Muito obrigado."
O discurso de Ruy Mesquita lido por seu filho, o jornalista Fernão Lara Mesquita, membro do Conselho de Administração do Grupo Estado, por ocasião da entrega do Prêmio Abap/Ícones da Comunicação, na categoria Liberdade, que destacou a combatividade do jornal O Estado de São Paulo em defesa da democracia.
Assim como o jornal O Estado de São Paulo, este blog está sob censura, desde dezembro de 2009.